Fortnite e a descida para a loucura

Fortnite e a descida para a loucura

08/12/2020 0 By Tiago Pimenta

Se existe jogo que marcou esta geração foi Fortnite. Talvez não da mesma forma para todos, mas a verdade é que o mundo dos videojogos não consegue ser indiferente a este gigante que consegue atrair multidões.

Ao longo dos últimos anos sempre que se fala de “jogos mais jogados” o Fortnite está sempre no topo. Não existe um único ano desde que saiu que não esteja nomeado pelo menos para uma categorias nos prémios anuais de videojogos. Contudo, um jogo tão grande nem sempre o é pelos melhores motivos. Fortnite é aquele jogo que é odiado e amado de igual forma. Para a sua base de fãs que o adora existe outra base que o adora odiar. Com essa mistura de amor e ódio o Fortnite lá se vai mantendo vivo ao contrário do que muitos dizem. O número de pessoas a assistir na twitch continua estável e as vendas de microtransações no jogo continuam a dar à Epic um conforto e alcance que muitos apenas sonham conseguir.

No meio de tudo isto decidi, durante estes últimos dois meses, dedicar-me ao Fortnite para perceber o porquê de tanto alvoroço à volta de um jogo. A verdade é que fiquei surpreendido com o que encontrei e posso dizer que agora percebo um pouco melhor ambos os lados.

Quando entramos no Fortnite somos presenteados com um conjunto de promoções e lançamentos diários de skins para as quais temos que usar dinheiro real. Se fizermos skip a isso não somos logo levados ao jogo mas sim ao battlepass para vermos tudo o que podemos ganhar caso o queiramos adquirir. Esta enchente de oportunidades para gastar dinheiro é um dos motivos que torna o Fortnite perigoso e altamente aditivo. É criada a ideia de que precisamos de ter uma skin para pertencer a este universo. Embora não seja explícito, a verdade é que existe uma pressão para se entrar no jogo sem uma skin ou itens básicos.  A oferta existente é também bastante apelativa. Fortnite neste momento faz lembrar a Lego com acesso a variados IPs que oferecem algo para todos os gostos. STAR WARS, DC e MARVEL são apenas alguns dos exemplos de skins que podemos encontrar ao longo do jogo. Isto trás um apelo extra ao jogo, pois de um momento para o outro deixam de ter apenas acesso a quem gosta de Fortnite e passam a ter também acesso a essas bases de fãs. Basicamente o que a EPIC faz é ver onde poderá estar o interesse, criar o produto e deixar a procura aumentar. Ao mesmo tempo cria skins que se tornaram raras devido às suas restrições temporárias na loja ou pela dificuldade das missões necessárias para a alcançar.

Tudo isto torna o jogo um pouco aditivo na sua componente social. Existe um conhecimento do comportamento humano e da sua necessidade de pertença e destaque. Existe também um bom conhecimento do mercado e de como mover esse mercado.

Ao contrário de outros Battle Royals, o Fortnite conseguiu reinventar-se sem perder a sua essência. Cada temporada trás algo novo ao jogo e pode mudar a forma como os jogadores jogam. Isto vai desde mudanças no mapa, no gameplay ou até buffs e nerfs de armas. Trazendo assim uma variedade necessária que faz com que o jogador não se canse do que está a jogar. Embora seja sempre o mesmo não o parece, e é aqui que o Fortnite brilha.

Por muito que se queira criar a ideia que o Fortnite é um mau jogo a verdade é que não o é. Olhando puramente para o gameplay que o jogo oferece podemos dizer que o Fortnite é um shooter em terceira pessoa muito capaz, e talvez, um dos melhores battleroyals. O gameplay é fluído, as mecânicas de combate são precisas e responsivas, construir é um misto de estratégia e processamento rápido. Isto tudo faz com que o jogo seja fácil de jogar mas difícil de dominar. Esta curva de aprendizagem recheada de gratificação constante contribui mais uma vez para o comportamento aditivo. Mesmo quando falhamos somos recompensados e isso faz com que nos sintamos bem. Quanto melhor fizermos, mais recompensados somos o que ajuda ainda mais, e juntando a isso a componente social temos a combinação perfeita.

Depois de 2 meses em Fortnite e com a minha experiência em duas temporadas posso dizer que Fortnite é um bom jogo com péssimas políticas. A procura predatória de consumismo principalmente quando se direcciona a um público mais jovem é algo a ter em conta. Contudo, o gameplay é sólido e o jogo é divertido. Certamente irei continuar a jogar Fortnite, e quem sabe, um dia, perderei a cabeça e comprarei uma skin. Pelos menos aqui sei o que estou a comprar e não paguei para ter o jogo… ao contrário de outros jogos que falaremos depois.