Uma visão psicológica dos jogos de terror

Uma visão psicológica dos jogos de terror

31/10/2020 0 By Tiago Pimenta

O que faz com que uns queiram jogar este tipo de jogos e outros fujam deles?

Durante toda a minha vida os jogos de terror tiveram um papel no meu percurso como jogador. O primeiro jogo que me lembro de receber emprestado de um amigo foi o Resident Evil para o PC. Na capa estava um homem com um ar aterrorizado a usar uma espécie de equipamento militar. Não me parecia muito diferente de muitos outros shooters genéricos que tinha devorado nessa geração. Até hoje eu acredito que esse meu “amigo” sabia perfeitamente que o meu cérebro de 6 anos não iria aguentar o que o jogo tinha para oferecer mas mesmo assim, talvez para o seu divertimento, deixou-me seguir esta aventura.

Desde aquele primeiro zombie até aos zombies apresentados no Resident Evil 7 a minha reacção para com os jogos de terror manteve-se intacta. Ou seja, prefiro não me aproximar deles.

Mas essa reacção, que para mim parece ser completamente natural e normal, acaba por ser contraditória quando comparada à de muitos outros “gamers”. Mas afinal o que é que faz uns quererem jogar este tipo de jogos e outros fugirem deles?

Embora o tema de terror seja bastante apelativo a verdade é que isto tem sido explorado maioritariamente em conexão aos filmes e não aos jogos. Embora a sua base possa ser a mesma a verdade é que os filmes e os jogos proporcionam uma experiência bastante diferente.

Nos filmes temos um papel mais passivo. Independentemente das nossas decisões ou acções e filme segue a sua narrativa e não espera pela nossa interacção. Se uma parte do filme for demasiado assustador nada nos impede de fechar os olhos e isso em nada irá impactar o desenvolvimento do que está a acontecer. 

Já no jogo temos uma papel mais activo. Se em algum momento algo se tornar bastante assustador ainda é necessário o input do jogador para que a acção continue. Aí parece haver uma imposição sobre o jogador. Existe uma necessidade de tomada de acção que faz com que a narrativa continue. Com esta diferença poderá ser possível dizer que os jogos poderão proporcionar uma experiência mais intensa e exigente.

Segundo Walters (2004), existem três factores  que tornam os filmes de terror apelativos. Tensão; Relevância; Irrealismo. Embora os dois primeiros sejam fáceis de perceber o último parece um pouco desajustado. No entanto, é apontado como um factor pois parece existir um maior à vontade quando o que acontece no ecrã é visto como algo irreal. Com isto em mente podemos dizer que os videojogos conseguem oferecer, com maior facilidade, estes três factores. 

No entanto, isto foca-se apenas no apelo do terror, e não explica o porquê das pessoas se submeterem a uma experiência que poderá ser vista como “dolorosa” vez e vez sem conta. Antes de mais temos que olhar para o que motiva o comportamento humano e as nossas atitudes perante situações que podem ser consideradas extremas. 

Simplificando aquilo que é o nosso cérebro vamos dividi-lo em duas partes. A parte de cima (racional e lógica) e a parte de baixo (emocional e impulsiva). Quando estamos perante uma situação stressante podemos perder a conexão com a nossa parte de cima e aí apresentamos uma resposta mais emocional. Nesse caso é activado o nosso instinto de fuga (evitar a situação), luta (ter uma resposta física para tentar lidar com a situação) ou paragem (congelar perante a situação).

Tendo em conta que os jogos de terror colocam o jogador em várias situações “extremas” que obrigam a uma tomada de decisão “racional” poderá ser possível dizer que o jogador está a passar por um processo de treino dos seus mecanismos de coping (mecanismos de defesa). Esta abordagem é levada mais à frente por Johnsen (S/D) que afirmou que ver filmes de terror pode dar à pessoa uma sensação de controlo sobre o medo e sobre a situação ajudando assim no processo de regulação emocional, ou seja, na nossa capacidade de controlar a nossa resposta emocional.

Ok, assim parece que já estamos a chegar a algum lado. Existe um processo de treino do nosso controlo emocional. Contudo esse processo poderá ser motivado por outro factor. Segundo Sparks (2018) quando as pessoas assistem a um filme de terror existe um sentimento de excitação que se mantém mesmo após o final do filme. Isso significa que as experiências emocionais que sentimos após a visualização do filme serão mais intensas.

Se olharmos para isto à luz dos videojogos podemos ter a combinação perfeita. Os jogos tendem a ser algo social mesmo quando são singleplayer. Eles tendem a oferecer oportunidades de interacção que na sua maioria poderão ser vistas como positivas. Além disso, poderá também existir um sentimento de auto eficácia anexado ao superar de um certo nível ou barreira no jogo. Isso tudo poderá então ser ampliado por esse tal sentimento de excitação. Contudo, se a experiência for mais frustrante o jogador poderá ficar com uma sensação menos positiva em relação aos jogos.

Além disso, Hess (2013) afirmou ainda que os “sentimentos negativos criados por um filme de terror acabam por intensificar os sentimentos positivos quando o herói sai triunfante no final.” Mas e se o herói fosse controlado por nós? Aí podemos falar de várias coisas desde a nossa capacidade de empatia que nos permite fazer coisas como conseguir perceber e conectar com o que a personagem do jogo está a sentir. Implica também olhar para a gratificação que sentimos porque deixa de ser a personagem X a superar algo mas nós como jogadores a conseguir superar uma barreira.

Mas sem alongar demasiado então o que leva alguém a jogar jogos de terror? A verdade é que a resposta a isso é um conjunto de factores. Por um lado, temos o desenvolvimento emocional que estes jogos permitem e a forma como podem impactar a nossa experiência das emoções, mesmo depois de termos deixado de jogar . Temos também a sensação de controlo ou até como Johnsen (S/D) também refere, a fuga de outras emoções que poderão ser menos agradáveis. Podemos também ter pessoas que jogam jogos de terror para quebrar a rotina e ter a oportunidade de “viver” algo que de outro forma seria impossível e que trás algumas emoções e sensações que poderão estar em falta.

Ao final do dia jogar jogos de terror não é tão diferente de jogar um jogo de acção ou de aventura pois tudo se resume ao divertimento e compensação que o jogador pensa obter com a sua experiência… Mas continua a ser um não de minha parte.