Efootball PES – Nostalgia e divertimento

Efootball PES – Nostalgia e divertimento

24/09/2020 0 By Tiago Pimenta

Pode ser difícil avaliar um jogo de desporto. Olhamos para o quê? Componente táctica? Realismo em campo? Fidelidade visual? Microtransações? Na verdade, acabamos por dissecar tudo isto. Mas será que existe algo que se perde? Ao olhar para tudo isto num simulador desportivo será que perdemos a sua essência? Seja ela qual for…

Anexado a um jogo de desporto existe sempre um comentário que é inevitável: Porquê dar mais 70€ se só vão fazer um update aos plantéis e uniformes? Esta é a pergunta que infesta todas as conversas sobre jogos de desporto. Seja FIFA, PES ou NBA2K existe sempre um olhar sobre sobre o porquê do lançamento actual.

No entanto, existe outra pergunta. Uma pergunta actualmente que só se aplica num dos desportos simulados. FIFA ou PES? Mais nenhum desporto simulado tem 2 jogos que tentam oferecer uma experiência similar. Em muitas outras modalidades temos jogos que embora sejam sobre o mesmo desporto têm uma abordagem bastante diferente. Ou porque uma tenta ser realista, outra tenta ser mais cartoonish e outros misturam géneros ao ponto de mal sabermos se na realidade o que temos é um jogo de desporto ou um dating game.

Esta pergunta já se mantém à gerações. Eu lembro-me perfeitamente de ter 14 anos e sair o mítico Pro Evolution Soccer 4. Os intervalos na escola eram dominados por conversas sobre construção de equipas e vitórias na Master League. Fora da escola realizávamos pequenos torneios em grupos que acabavam por testar amizades. O FIFA já lá estava, rondava nas sombras sempre como uma alternativa. Mas nessa geração PES era o rei.

Como todas as monarquias não dominadas por uma velhinha simpática, o Rei acabou por cair. Com o passar dos anos o PES pouco ou nada mudou na sua estrutura e o FIFA, muito por causa das suas licenças, continuava a ganhar terreno e a dominar. O rei agora era outro e trazia consigo uma visão nova sobre o desporto rei. Com a chegada do FIFA 09, cinco anos após a saída do PES 4, foi apresentado o modo Ultimate Team (UT). Este modo era algo completamente diferente do que temos agora. Para começar, este modo era um DLC pago que trazia um misto de jogos offline e online em que os jogadores ganhavam dinheiro virtual. Agora, esse mesmo modo que começou com pouco mais de 1 milhão de jogadores, é uma autêntica máquina de dinheiro com milhões de packs vendidos a cada ano.

Com o novo reinado do FIFA e com a crescente influência das microtransações sobre o jogo, muitos jogadores voltaram a olhar para o PES como uma alternativa. O rei que tinha caído do trono encontrou uma segunda oportunidade para voltar à sua antiga glória.

A entrada na actual geração foi bastante consistente para a Konami. O PES 2016 obteve análises maioritariamente positivas tanto de fãs como da imprensa. Esta moda manteve-se durante toda esta geração. 

Em 2019, depois de anos de análises positivas, o PES deixou de existir e eis que chegou o Efootball PES 2020. Esta transição foi marcada pela aposta em competições online e na tentativa de trazer o PES para a esfera dos Esports. Além disso, ao longos dos últimos anos a Konami tinha vindo a apostar de forma agressiva em licenças de equipas e ligas sul americanas e asiáticas. Desta forma, fizeram com que a sua base de fãs fosse crescendo onde o FIFA não crescia tanto. Isso não significaria que a Konami tenha perdido o interesse nos seus clientes europeus. Um desses exemplos foi a compra da exclusividade da licença da Juventus e o facto de se terem tornado parceiros oficiais do Euro 2020. 

O Efootball PES parecia estar a tomar todas as decisões certas. Além disso, em campo, o jogo estava melhor que nunca. A bola tinha movimento próprio e independente dos jogadores dando um toque mais realista ao confronto pela posse de bola. Os jogadores eram pesados e não pareciam maratonistas quando corriam pela linha lateral. A criatividade táctica estava lá e tínhamos controlo de quase tudo que podíamos fazer. Acima de tudo isso, o feel do PES estava lá e por momentos quando peguei naquele comando e comecei a jogar lembrei-me de qual era a essência dos jogos de desporto. O divertimento.

Para muitos de nós a pergunta FIFA ou PES activa uma parte primitiva do nosso cérebro que nos faz querer defender um ou outro. Para tal arranjamos várias desculpas desde licenças, jogabilidade ou até o jogador de capa. Na verdade, para muitos de nós, tudo se resume a divertimento e até memórias. Para mim, sentar-me e jogar PES não é apenas jogar um jogo de futebol. Não é tentar conquistar títulos. Não é a busca de ranking online. É sim um misto de emoções que liga o desporto que gosto com as memórias da minha adolescência com os meus amigos. É ouvir outros da minha geração falar sobre o jogo e ver que embora estivéssemos tão longe, sentíamos o mesmo e partilhávamos o mesmo divertimento.

Para muitos, isto é o que acontece com o FIFA, com o NBA2K ou até com o WWE2K (eu outra vez, mas fica para outro texto). Isso demonstra o impacto destes jogos em nós e não deveria ser motivo para discordância mas sim para união. Além disso, FIFA e PES tentam oferecer algo diferente aos seus jogadores abrindo espaço para que cada um encontre o seu “canto”. O facto de termos duas companhias a apostar no mesmo desporto e a competir entre si é óptimo para o consumidor e este ano tivemos um exemplo disso.

Como já dissemos em cima a pergunta dos 70€ domina as conversas. Este ano a Konami decidiu apostar num update pago com um valor bastante reduzido. Isto era o que a comunidade tinha vindo a pedir ao longo dos anos. Claro que isto foi também feito porque a Konami sabe que tem que fazer uma espécie de All In se quer continuar em jogo nos próximos anos. Mas o facto de haver essa pressão fez com que a comunidade tivesse o que pedia. Isto faz do PES um jogo melhor que o FIFA? Para muitos sim, para outros não. O que importa é: estão-se a divertir?

Mas aí está, esta não é uma análise de EFootball PES 2021 Season Update. Mas se o fosse será que deveríamos olhar para a análise como uma continuação do jogo anterior? Talvez fosse merecida uma análise nova como um jogo independente. Se já jogaram ou viram análises do Efootball PES 2020 já sabem tudo o que o Season Update tem para oferecer. Isto é o update anual pago que pouco acrescenta ao jogo para além da correção de alguns bugs, licenças novas e updates de equipas. A mecânica e base continua a ser a mesma do ano anterior. Para quem nunca jogou PES, e esta será a sua entrada, é provavelmente a melhor entrada que poderiam ter. Um jogo que tenta ser o mais realista possível e que se foca no que acontece dentro das 4 linhas.

Claro que o jogo não está isento de problemas. Por vezes os defesas fogem da bola como se ela fosse uma autêntica bomba deixando os avançados da equipa adversária completamente à vontade. Esses momentos são extremamente irritantes. Contudo, o jogo oferece também uma certa magia. Quando damos por nós a fazer dez passes seguidos e a trocar a bola de forma excecional que por fim leva a um golo brilhante sentimos que não só fomos bons em campo como também na táctica e indicações que demos fora de campo.

Existe também uma falta de criatividade no que diz respeito ao modo Master League em que pouco evolução temos visto ao longo do tempo. No entanto, continua a ser dos melhores modos carreiras como treinadores para além do Football Manager.

PES para mim, neste momento, não é apenas um bom jogo de futebol que faz tudo o que promete e que me deixa entusiasmado com o seu futuro na próxima geração de consolas. É um jogo recheado de nostalgia que me faz viajar no tempo cada vez que entro em campo. É um jogo que me diverte durante horas independentemente dos seus defeitos ou falhas. E, ao final do dia, para mim, é essa a essência dos jogos de desporto, divertir e conectar.