Apple vs Epic – A batalha dos gigantes.

Apple vs Epic – A batalha dos gigantes.

25/08/2020 1 By Ricardo Alves

Ultimamente a industria dos videojogos tem sido uma montanha russa, entre as típicas lutas sobre qual jogo é candidato para melhor jogo do ano, guerras de plataformas e rumores de aquisições de estúdios ou exclusividade temporária de certos IPs destinados à próxima geração de consolas.

Contudo, por vezes a controvérsia surge com proporções épicas (passo o trocadilho). A natureza confrontacional da Epic Games (criadora do fenómeno geracional Fortnite e das várias iterações daquele que é o motor de jogo mais utilizado por developers, Unreal Engine) já não é novidade para muitos, que desde a sua criação tem apostado em deals e aquisições agressivas numa guerra directa à Steam, tentando roubar marketshare por intermédio de exclusivos temporários e uma exigência de somente 12% de quotas em contraposição aos habituais 30% em qualquer outra storefront. Regra geral, tendo um discurso de quem está pronto para causar disrupção na industria, e uma atitude para acompanhar. Boicotes e sentimento de raiva por grande parte da comunidade gamer no PC são traços claros que nem todos jogam à bola com a Epic Store, e os constantes deals de exclusividade comprada vêm atirando lenha para a fogueira.

Desta vez o alvo a “abater” foi nada mais nada menos que uma pequena companhia chamada Apple.

A Apple não é estranha a processos em tribunal, que recentemente foi sujeita a um processo de investigação nos Estados Unidos por suposto “comportamento anti-consumidor e anti-competição” em função de recorrer a tácticas consideradas desleais face à concorrência, e, principalmente por exigir uma quota de 30% dos lucros em cada aquisição na sua store, mesmo que o consumidor já tenha subscrito e pago o produto.

E é precisamente este o ponto fulcral da desavença entre os dois gigantes, Epic e Apple.
A Epic games recusou-se determinantemente a aceitar abrir mão duma percentagem tão grande, e a Apple por sua vez avisou que não há excepções, take it or leave it.

Manteve-se uma espécie de “paz podre” entre as duas companhias, até que a faísca responsável por aquilo que viria a ser, em última análise, a quebra completa de cooperação entre ambas, surgiu a 13 de Agosto.

Tentando uma abordagem fora da caixa, a Epic decidiu contornar as directrizes da Apple ao implementar um sistema de pagamento directo de microtransacções (o principal ganha pão de Fortnite) , dando por completo a volta à politica da Apple. Como é óbvio, não foi de todo bem recebido, não estando a Apple de bem a assistir à perda dos ditos 30% de lucro puro num fenómeno tão grande como é este jogo. Como se não bastasse, a Epic aplicou exactamente o mesmo truque, desta feita na Google Store.

Como seria de esperar, o inevitável aconteceu e a Apple tomou a decisão nuclear de remover por completo o jogo da sua store e tudo a ele associado, assim como a Google que lhe seguiu o exemplo. Até aqui parece tudo bastante razoável, certo? Se uma empresa se compromete a fazer negócio numa determinada store front (seja Epic ou Google Store, PSN ou Live) têm que obedecer às regras da casa. Mas a Epic, não se dando por vencida decidiu ir ainda mais longe e tentar um hercúleo braço de ferro com duas das maiores companhias do mundo ao pôr ambas em tribunal, alegando inconstitucionalidade na sua decisão, que “ambas estão a sufocar a criatividade e liquidez das produtoras com as suas taxas exorbitantes, e em última instância, a serem completamente anti-concorrência/anti-consumidor”.

Não se compreende facilmente esta manobra da Epic, que ainda por cima espera receber uma indemnização por parte de ambas as Stores (ganância fala mais alto), mas há outras ramificações neste caso. Tanto a store front da Sony como Microsoft operam sob as mesmas directrizes e quotas. Resta saber se a cruzada auto-destrutiva da Epic se fica por aqui ou se também decidem dar um tiro no outro pé e alienar completamente as 2 maiores plataformas que lhes restam.

Pouco tempo depois, a Epic fez uma “paródia” a um antigo anúncio da Apple , inserindo no anuncio uma personagem de Fortnite, que desfaz um ecrã com o símbolo da Apple. Utilizando a hashtag FreeFortnite, para criar empatia e puxar o apoio do público na sua demanda por lucro, perdão, liberdade.
Por esta altura, o vídeo está perto dos 6 milhões de visualizações.

Mas a verdadeira resposta veio depois. Em 17 de Agosto a Apple decidiu terminar permanentemente a sua afiliação com a Epic Games, ao terminar e extinguir todas as contas de development da Epic, juntamente com todas as tools para tal. A remoção foi rápida e sem grande pompa e circunstância, sendo imediatamente interposta por uma providência cautelar da parte da Epic para tentar adiar e recorrer da decisão.

Vamos ser sinceros, entende-se que todas as store fronts tenham a sua quota parte na distribuição de conteúdo digital e publishing rights. Talvez se conseguisse um meio termo entre developers e platform holders. Mas de momento, o facto da Epic se julgar a única digna de tratamento especial é insultuoso e esta guerra já lhes custou demasiado.

Tim Sweeney, CEO da Epic, continua resoluto na sua decisão (pelo menos até começar a doer) e continua a esconder-se por trás do escudo de que é tudo uma luta pela liberdade criativa e para facilitar que mais developers consigam prosperar, mas seria ingénuo assumir que não se trata principalmente por ganância desmesurada.

Esta saga ainda está longe de terminar, resta saber se a Epic tentará voltar atrás com a decisão, ou arder em chamas ao tentar alienar Sony e Microsoft no processo. Regra geral, se se vai começar uma guerra é bom ter os pés bem assentes no chão, um bom plano, e de preferência não desafiar directamente os dois maiores colossos da indústria em simultâneo.

Nos últimos dias, a Epic tem vindo a criar um maior buzz em torno de todo este debate, buscando aliados e tentado fazer os media ver o seu lado da moeda. Vários jornais Americanos, como o NY Times ou Washington Post partilham dos ideiais de Sweeney, em como baixar as quotas de 30% para algo mais intermédio beneficiaria todos. Talvez este pushback tenha feito a Apple reconsiderar (em parte) certos pontos, mas a sua decisão mantém-se de pedra e cal. Contudo, já foi emitido o comunicado que caso a Epic reverta ao sistema antigo, terão todo o gosto em os receber de volta e devolver todos os direitos e tools para development. “Cabe apenas à Epic resolver o problema que causou para si mesma”.

Toda esta situação é fascinante. Nunca uma companhia tentou vencer um braço de ferro impossível contra autênticos colossos, e caso consiga, a landscape da indústria pode, efectivamente mudar positivamente em muitos pontos. Contudo, é altamente improvável que as ambições da Epic sejam realizadas, e não será de todo inesperado um 180 da Epic e um retorno, amargo, ao status-quo. Fica a lição de que por muito bem sucedido seja um IP ou valiosa uma companhia, entrar em guerra directa com quem domina na industria nunca é boa ideia. Aguarda-se mais updates nesta situação.